domingo, 3 de julho de 2011

PRENCONCEITO LINGUÍSTICO – O QUE É, COMO SE FAZ, de Marcos Bagno

O livro “Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno, já começa, nas suas primeiras linhas, com o que pretende defender ao longo de toda a obra: “só existe língua se houver seres humanos que a falem” e “o ser humano é um animal político”. A partir apenas dessas duas frases, poder-se-ia fazer um pequeno resumo das ideias de Marcos Bagno: todo ser humano é um falante natural e devidamente competente de sua própria língua, e os chamados “erros de português”, que ele também critica, são puramente uma invenção política.
Na opinião de Marcos Bagno, “O preconceito linguístico está ligado [...] à confusão que foi criada [...] entre língua e gramática normativa.”. A partir daí, o autor vai enumerando e desconstruindo oito mitos existentes com relação ao português, de maneira geral.
“Mito nº 1 – ‘O português do Brasil apresenta uma unidade surpreendente’”: segundo Marcos Bagno, é o mais grave de todos, por estar tão enraizado na mentalidade brasileira, que até “boas observadoras dos fenômenos sociais brasileiros, se deixam enganar por ele.”, antes de citar Darcy Ribeiro como uma destas pessoas. O problema deste mito consiste no fato de que, “ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil, a escola tenta impor sua norma linguística como se ela fosse, de fato, a língua comum a todos os quase 190 milhões de brasileiros (...)”. Para o autor, não existe língua no mundo totalmente uniforme e homogênea, e esta diversidade, no Brasil, decorre, principalmente, não só da extensão territorial, mas da “trágica injustiça social”. Ele continua: “Como a educação de qualidade ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio das formas prestigiadas de uso da língua.”. Para Marcos Bagno, a conseqüência disto é que muitos brasileiros deixam de usufruir de serviços essências que são direito deles devido à barreira imposta pela “linguagem empregada pelos órgãos públicos”.
“Mito nº 2 – ‘Brasileiro não sabe português/ Só em Portugal se fala bem português’”: na opinião do autor, este mito é originado do “sentimento de sermos até hoje uma colônia dependente de um país mais antigo e mais ‘civilizado’.”. A partir daí, Marcos Bagno enumera algumas das muitas diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. Para o autor, “As regras gramaticais consideradas ‘certas’ são aquelas usadas pelos ‘falantes cultos’ de lá, que servem para a língua falada lá, que retratam a língua que os portugueses falam.”. Ou seja, as regras do português de Portugal não servem, necessariamente, ao português brasileiro. No final do capítulo, Marcos Bagno usa a obra Emília no País da Gramática, de Monteiro Lobato, para representas a figura do “gramático autoritário e intolerante” ridicularizado por Lobato.
“Mito nº 3 – ‘Português é muito difícil’”: na opinião de Marcos Bagno, “Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical literária de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa parte não correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil.”. Novamente, o autor repete sua máxima: “Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua.”. Porém, como “o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português”, regras que não são mais seguidas por praticamente nenhum falante continuam sendo ensinadas nas escolas. Por fim para Marcos Bagno, “a ideia de que ‘português é muito difícil’ serve como mais um dos instrumentos de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas.”. Saber português não é decorar uma nomenclatura confusa e, na prática, inútil.
“Mito nº 4 – ‘As pessoas sem instrução falam tudo errado’”: Marcos Bagno busca explicações científicas e históricas para, por exemplo, a transformação do L em R nos encontros consonantais, como em Cráudia, ao afirmar que tal transformação já ocorreu em outras palavras, hoje usadas naturalmente e consideradas “certas”, como cravo, escravo e fraco.  Ou seja, “o fenômeno que existe no português estigmatizado é o mesmo que aconteceu na história do português prestigiado, e tem até um nome técnico: rotacismo.”. Além disso, Marcos Bagno também cita o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais, usando como exemplo o modo como a fala nordestina é retratada nas novelas de televisão.
“Mito nº 5 – ‘O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão’”: segundo Marcos Bagno, “Esse mito nasceu, mais uma vez, da velha subserviência em relação ao português de Portugal.”. Isso porque, no Maranhão, ainda se usa, com regularidade, o pronome tu seguido das formas verbais clássicas, enquanto que, na maior parte do Brasil, houve uma reorganização do sistema pronominal, com o tu sendo substituído por você. Porém, Marcos Bagno ainda indica alguns erros cometidos por esses mesmos maranhenses, provando a inconsistência deste mito. O autor concluir: “É preciso abandonar essa ânsia de tentar atribuir a um único local ou a uma única comunidade de falantes o ‘melhor’ ou o ‘pior’ português e passar a respeitar todas as variedades da língua, que constituem um tesouro precioso de nossa cultura.”.
“Mito nº 6 – ‘O certo é falar assim porque se escreve assim’”: Marcos Bagno começa exemplificando o fenômeno da “(...) variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares (...)”. A partir daí, discute “(...) uma tendência (mais um preconceito!) muito forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar ‘do jeito que se escreve’, como se fosse a única maneira ‘certa’ de falar português.”. Além disso, a escrita é apenas “(...) uma tentativa de reprodução [...] porque sabemos que não existe nenhuma ortografia em nenhuma língua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade.”.  Além disso, a escrita não dá conta de todos os fenômenos prosódicos, e “(...) a ortografia sempre é fixada segundo critérios bastante diversos, quase nunca rigorosos do ponto de vista de uma representação mais lógica e sistemática.”.
“Mito nº 7 – ‘É preciso saber gramática para falar e escrever bem’”: Marcos Bagno dá exemplos quase incontestáveis para desconstruir esse mito: “Afinal, se fosse assim, todos os gramáticos seriam grandes escritores (o que está longe de ser verdade), e os bons escritores seriam especialistas em gramática.”. O autor continua: “Ora, os escritores são os primeiros a dizer que gramática não é com eles!”, e dá exemplo de grandes escritores brasileiros, como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis que admitiram não entender nada da área. Marcos Bagno conclui dizendo que “(...) é infinitamente mais útil e relevante ensinar alguém a tirar proveito de uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo na construção de um bom texto do que fazer essa pessoa decorar esses nomes todos (...)”. Ou seja, “(...) é infinitamente mais útil e relevante aprender a usar a língua e não aprender sobre a língua.”.
“Mito nº 8 – ‘O domínio da norma-padrão é um instrumento de ascensão social’”: assim como o mito nº 1, este tem muito a ver com questões sociais. Marcos Bagno começa argumentando, com certa ironia: “(...) se o domínio da norma-padrão fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo na pirâmide social, econômica e política do país (...)”. Em contrapartida, pode haver um fazendeiro milionário e analfabeto, diz ele. “Achar que basta ensinar a norma-padrão a uma criança pobre para que ela ‘suba na vida’ é o mesmo que achar que é preciso aumentar o número de policiais na rua e de vagas nas penitenciárias para resolver o problema da violência urbana.”. Ou seja, a questão da desigualdade social está ligada a muitos outros fatores que não o conhecimento da norma-padrão da língua (cor, classe social, sexo, origem geográfica), e não é necessariamente determinante para a tal “ascensão social”.
O círculo vicioso do preconceito linguístico”: é o responsável pela transmissão e perpetuação do preconceito linguístico. É composto pela gramática tradicional, os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos. Entre eles, há um quarto elemento, que Marcos Bagno chama de comandos paragramaticais. A partir daí, Bagno passa a criticar os autores desse tipo de obra, evidenciando pontos em que há explícito preconceito contra aquelas pessoas que não seguem a gramática normativa.
Depois disso, Marcos Bagno sugere maneiras de desconstruir o preconceito linguístico, enumerando três problemas básicos: a grande quantidade de analfabetos no Brasil, o fato de a maioria das pessoas plenamente alfabetizadas não cultivarem nem desenvolverem suas habilidades linguísticas e a nebulosidade que gira em torno do termo norma-padrão. Ou seja, a língua considerada “certa” pela gramática nem sempre é a predominante na fala e na escrita da parcela mais culta da população, chamada por Marcos Bagno de variedades urbanas de prestígio. Portanto, há visível distinção entre o ideal (ditado pela gramática normativa) do real (a verdadeira língua falada e escrita pelas classes privilegiadas do Brasil).      
Marcos Bagno também clama por uma mudança de atitude, que seria uma maior investigação da língua real falada pelos brasileiros. “A língua é viva, dinâmica, está em constante movimento – toda língua vida é uma língua em decomposição e em recomposição, em permanente transformação.”.
Para o autor, o ensino de português está formando professores, não necessariamente usuários competentes da escrita mais monitorada. Ou seja, “O ensino da gramática normativa mais estrita, a obsessão terminológica, a paranoia classificatória, o apego à nomenclatura – nada disso serve para formar um bom usuário da língua (...)”. Para exemplificar isso, usa uma metáfora sobre auto-escolas e a formação de um motorista.
Adequação X Aceitabilidade: significa buscar um equilíbrio entre “(...) nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos (...)” e considerar “(...) o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores.”. 
Outra situação bastante interessante discutida por Marcos Bagno é o “(...) mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de ‘comunicar’, de ‘transmitir ideias’ [...] a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade, de manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de emudecimento.”.

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